terça-feira, 12 de julho de 2011

Cicuta e Capitalismo


                Era um soldado fiel da Casa Real, um bravo homem, em que certo dia fora dispensado de suas funções, deixado ao léu pela Coroa, sem instrução o bastante para disputar alguma vaga na indústria ou nas Forças Armadas. Chegara a sua casa, sem esperança ou alento por uma vida desperdiçada, e sua bravura em defender o Rei se tornara vã ao ver o futuro de suas duas jovens filhas, sem o pão e a dignidade paterna. Não sabe-se muito bem se foi com a bala ou com os pulmões cheios do rio Havel, mas acabou com sua vida deixando uma carta à duquesa para que ajudasse a sua família.
            Esta foi uma pequena narrativa contada nas últimas linhas de Karl Marx no texto sobreposto, sabiamente, aos diários de Jacques Pecheaut – Chefe de Polícia de Paris do início do século XIX –, o Sobre o Suicídio, publicado em um jornal alemão. O pequeno ensaio citado, de poética extraordinária, nos traz a alguns acontecimentos de nosso presente obscuro.
            No texto, um de seus locutores descreve que nossa moralidade, filosófica ou cristã, bota a memória do suicida no banco dos réus, acusando-o de um ato covarde ou por postura antinatural. O soldado balança a cabeça enquanto o público aplaude. “Como seria antinatural algo que testemunhamos na natureza da vida privada de nossa sociedade?” Defende seus dois advogados e, indignados, continuam:

O número anual dos suicídios, aquele que entre nós é tido como uma média normal e periódica, deve ser considerado um sintoma da organização deficiente de nossa sociedade; pois, na época da paralisação e das crises da indústria, em temporadas de encarecimento dos meios de vida e de invernos rigorosos, esse sintoma é sempre mais evidente e assume um caráter sintomático. A prostituição e o latrocínio aumentam, então, na mesma proporção. Embora a miséria seja a maior causa de suicídio, encontramo-lo em todas as classes, tanto entre os ricos ociosos como entre os artistas e os políticos. A diversidade das suas causas parece escapar à censura uniforme e insensível dos moralistas” (MARX, 2006: 24).

A história do soldado, do filósofo alemão e do investigador francês morre em seu tempo? Ou este julgamento subjetivo nos traz jurisprudência o bastante para analisarmos as ebulições contemporâneas? Vaguemos pelo segundo questionamento.
Há um dado interessante em todo este imbróglio da crise econômica de 2008, ainda permanente: os números de suicídio na União Europeia subiram drasticamente como demonstra o gráfico do jornal Lancet:

            Estes dados representam uma pesquisa quantitativa até meados de 2009, e quando olhamos mais de perto os números se agravam na Irlanda (que teve um aumento de 13 por cento) e na Grécia (um aumento de 17 por cento). Já é o bastante para tirarmos nossas conclusões? Não! Isto é muito pequeno para o relatório do Ministério da Saúde grego, Andrea Loverdo, nestes últimos tempos, que consta um aumento de, pasmem, 40%! Lembrem que no crack da bolsa de Nova Iorque, os Estados Unidos tiveram uma taxa de suicídios tão grande que os hotéis têm até hoje suas janelas trancadas para que seus cidadãos não saltem para, como descreveu Marx, o paraíso, para os cristãos, ou o simples e confortante Nada – o destino manifestado às vítimas do sistema.
            Entretanto a epidemia suicida é da natureza de nossa sociedade, de sua vida privada que acomete não só suas vítimas, mas também os que “insurgem contra a ideia de assumir um lugar honroso entre os carrascos” (Ibidem: 29). Isto é demonstrado nos cinco casos da obra: grande parte dos principais personagens é da elite francesa.
            Tais dados não são preocupantes, são riscos em um folha, números em uma tabela. Mas quando descobrimos que por trás destas representações simplórias da realidade há nomes, famílias arrasadas, pulsos cortados, corações trespassados por balas, corpos entregues ao trem, não podemos nos tornar omissos ao Mediterrâneo ensanguentado que escreve sua carta derradeira à nossa ordem opressora. Cabe-nos lê-la.

Refereências bibliográficas:
MARX, Karl. Sobre o Suicídio. São Paulo: Editora Boitempo, 2006.


Yuri Gomes Alves

sábado, 2 de julho de 2011

Sobre Cuba e outras perspectivas



            O Brasil recebeu a visita de Aleida Guevara, filha do revolucionário Ernesto, e a pergunta que nos traz é: o que o espectro guevariano pode nos oferecer? Pediatra, comunista e responsável pela memória de seu pai, Aleida veio até a terra tupiniquim palestrar sobre agroecologia em Londrina. De fato o dado bruto de sua visita não me interessou em primeira vista, mas a entrevista concedida à “Folha de São Paulo” trouxe algumas reflexões importantes sobre a famigerada ilha.
            Cuba é o celeiro de críticas e louvações nos debates políticos, sempre vazios de descrições e sistematizações por ambas as partes. A “revolução cubana” – na qual Fidel Castro, em seus discursos na década de 60, destacava sua singularidade em relação à União Soviética – assumiu um papel de destaque na mentalidade política mundial monopolizada pelo maniqueísmo liberdade/igualdade (constituinte do princípio de direita/esquerda) a la Norberto Bobbio, na qual, necessariamente, um conceito sacrificaria o outro. Neste ponto os defensores e opositores simplesmente invertem o enunciado ideológico: há ditadura, mas lembre-se que há igualdade social/há igualdade social, mas lembre-se que há ditadura. Independente destas posições clássicas e cruas, aparentemente, sobra-nos o olhar de um sistema político-econômico sobrevivente no qual só pode ser sentido e compreendido com certo ar memorialista do presente.
            Mas proponho outra visão: a perspectiva de Errol Flynn. Para quem não o conhece, ele era uma ator natural da Tasmânia, um dos ícones dos Estados Unidos nas décadas de 40-50, período este que iniciou seu declínio pelo alcoolismo, falecendo em solo canadense após um infarto fulminante. E daí? No fim de sua vida, observando sua degradação, resolveu fazer algo importante e desce até Cuba para gravar o filme “Cuban Rebels Girls”. A revolução já estava em seu término, e como Flynn gostava do perigo – já que fez longas viagens de barco até ilhas aborígenes antes da fama -, foi ao encontro de Fidel Castro nas montanhas, ensinou-o a discursar e decidiu mudar seu projeto; agora seria um documentário: o “Cuban Story” de 1953, apresentado apenas uma vez em Moscou por força do contexto político. Nesta pequena obra ele narrava as aventuras da guerrilha como as desventuras de seus personagens de piratas em “Capitain Blood”, ou as virtudes hollywoodianas de “The Adventures of Robin Hood”, e projetava todos os princípios liberais de liberdade e amor à Castro e seu grupo. O fundamental disso tudo é observar a própria observação crítica de um personagem pré-Guerra Fria, não pelo tempo ou pelo espaço que Flynn se encontrava, mas por seu espírito lacunar como o de Thomas em “A Insuportável Leveza do Ser”. Portanto seu discurso ideológico genealógico desconstrói o maniqueísmo atual e auxilia-nos a olhar com outra perspectiva a entrevista de Aleida Guevara.
            Se há uma coisa que tanto Direita como Esquerda dão as mãos é sobre a ausência da democracia em Cuba. Hoje se tornou criminoso pensar uma “ditadura do proletariado”, mesmo sobre a ótica do próprio Marx na qual a a democracia liberal seria a ditadura da burguesia, e, portanto, uma democracia socialista se torna inversamente ao primeiro pressuposto a ditadura do povo.  Mas de forma mais óbvia, e isto questiono a você leitor que deve ter uma opinião mínima sobre a ilha: como se configura o modelo político-eleitoral cubano? Poucos saberiam responder, acredito. Quase todos sabem que há apenas um partido em Cuba; mas qual é o papel deste partido? Mas antes: a democracia se baseia fundamentalmente no multipartidarismo? O multipartidarismo deve representar posições diferentes como a Esquerda? A maioria dos países capitalistas chamados democráticos na prática são bipartidários, com o maior exemplo dos Estados Unidos, que não tem representação efetiva da Esquerda, tem um sistema eleitoral na qual nem sempre aquele que tem maioria dos votos ganha... Esta “democracia” nos remete ao tom jocoso da Grécia Antiga de demokracia. O que Aleida nos traz é um sistema eleitoral bem complexo, na qual seus representantes são escolhidos através de votação popular em que os candidatos são selecionados por setores sociais das cidades, como hospitais e indústrias. Os representantes escolhem os ministros e o presidente, sendo que o partido dá orientações e acomoda a representação política no sentido de manter os pressupostos revolucionários. Esta organização política me veio por diversas fontes, como na entrevista de Aleida Guevara, e pode não ser assim tão funcional, como o mercado financeiro capitalista, ou pode haver obscurecimentos, como, por exemplo, as atividades na prisão de Guantánamo. Contudo é um modelo a ser discutido com afinco para se pensar posições de Esquerda, retomando a experiência histórica no sentido de questionar nossas presentes verdades e destruir de vez a antípoda liberdade/igualdade.
Hoje é fácil construir o discurso sobre formas já estabelecidas e por muito enrijecidas, mas devemos por um momento, como Flynn, tentar fazer algo importante ao observarmos o declínio de nossas presunções, e para isso, como diria Slavoj Žižek: "A única maneira de compreender a verdadeira novidade do Novo, é analisar o mundo através das lentes do que é eterno no Velho", e acrescento que algumas eternidades do Velho ainda são novidades e presentes.


Yuri Gomes Alves

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Em cena: árabes


No dia 17 de dezembro de 2010, Tarek al-Tayyib Muhammad Bouazizi, um vendedor ambulante de frutas e verduras na pequena cidade de Sidi Bouzid, foi abordado por oficiais de polícia da Tunísia. Embora não seja necessário naquele país uma autorização para se praticar comércio ambulante tal como Bouazizi fazia, os policiais o agrediram, confiscaram suas balanças e derrubaram sua carroça/loja, destruindo um valor aproximado de US$200 em produtos ainda não pagos por Bouazizi. Nascido na mesma cidade em que teria um dia sua rotina de trabalho interrompida, o jovem árabe perdeu o pai, que atuava como pedreiro na Líbia, aos três anos de idade. Ao lado de mais seis irmãos, sua mãe e um tio, Bouazizi teve seu primeiro contato com o trabalho aos dez anos, abandonando os estudos ao fim da adolescência para dedicar seu tempo ao sustento de sua família. Já adulto, pagava os estudos universitários de uma de suas irmãs com parte da renda mensal de US$140 que conseguia com o comércio.
Voltemos ao 17 de dezembro. Por não ser esta a primeira agressão sofrida pelo jovem, Bouazizi se dirigiu ao palácio do governador local, exigindo uma audiência para conseguir compensações pelas perdas de seus produtos, seu dinheiro, sua dignidade e seu trabalho. Após ter seu pedido rejeitado, Bouazizi, conhecido entre familiares e amigos por Basboosa, molhou seu corpo com tínner, riscou um fósforo e incendiou a si mesmo em meio ao tráfego de automóveis, em frente ao palácio do governo da província de Túnis. No dia 4 de janeiro de 2011, Tarek al-Tayyib Muhammad Bouazizi “Basboosa”, morreu em um leito de hospital na cidade de Ben arous. No decorrer dos quatro meses subsequentes, a Tunísia teve seu governo deposto, Hosni Mubarak foi demovido da presidência do Egito, o Estado do Iêmen negocia sua transição e a Líbia se divide em uma guerra civil sangrenta, sob o bombardeiro de forças aliadas do ocidente.
Apesar do desenrolar romântico da história de um jovem árabe que, num ato de revolta, dá início ao movimento de desobediência civil mais contundente deste novo século, Bouazizi não é o único detentor dos louros deste evento. O retrato de um mundo árabe marginalizado frente à cultura ocidental dominante, com uma juventude relativamente educada e instisfeita, presos em um sistema no qual as contradições da brutalidade do capital transbordam a olhos vistos, o processo de revolta parece mais um ato planejado numa tragédia, do que uma surpresa para todos. Talvez em uma reapresentação de uma conhecida lógica marxista, a farsa da revolta da primeira década deste século, remonte à tragédia da Revolta Árabe da primeira década do século XX. Porém, como bem observado por diversos pensadores ao longo do tempo, a farsa tem o péssimo hábito de ser mais trágica que a tragédia da qual ecoa. Se em 1916, os árabes desejavam ser livres do domínio otomano, hoje eles desejam ser livres de si mesmos. Livres não de suas ditaduras, não de seus costumes religiosos, mas livres daquele espírito de incômodo, de angústia, que não é singular ao jovem árabe que vende frutas em uma rua esquecida. Este mal-estar é próprio de todos os que se sujeitam à ordem corrente das coisas.
É sob esta óptica que quero iniciar meus trabalhos neste blog com uma série de artigos sobre as revoltas recentes no mundo árabe, seu significado para eles mesmos, para os observadores e para o processo social que envolve (e se desenvolve) este momento ímpar do início deste século. Se realmente nos encontramos no papel de espectadores de um turbilhão social internacional, entender sua realidade, seus símbolos, seus motivos e seus momentos é de um valor incomensurável para apreender nossa realidade, nossos símbolos, nossos motivos e nossos momentos.
Jose Antonio Ananias de Sillos

Socialismo e o Devir


Nesta notícia percebemos um avanço considerável da dívida externa dos países ricos, subindo de 47% para 61% do PIB global nos últimos quatro anos, alcançando o número 42 trilhões de dólares, como foi expresso pela agência Standard & Poors. Esta informação foi uma coincidência nada agradável com minha última leitura de István Meszaros, na coletânea de artigos “Crise Estutural do Capital”.  O filósofo húngaro em seus artigos caminha por uma via não muito usada pelos marxistas em geral: sua crítica estrutural e suas propostas “para além do capital” se firmam em um sentido inverso do próprio Marx em que o’O Capital o próprio capitalismo poderia superar todas suas crises, mas não conseguiria superar as revoltas e o “aufklärung” (esclarecimento) das massas à medida que diminui o número dos magnatas capitalistas que usurpam e monopolizam todas as vantagens desse processo de transformação, aumentam a miséria, a opressão, a escravização, a degradação, a exploração; mas cresce também a revolta da classe trabalhadora, cada vez mais numerosa, disciplinada, unida e organizada pelo mecanismo do próprio processo capitalista de produção. O monopólio do capital passa a entravar o modo de produção que floresceu com ele e sob ele. A centralização dos meios de produção e a socialização do trabalho alcançam um ponto em que se tornam incompatíveis com o envoltório capitalista. (MARX. O Capital, L. 1, V.2, p. 881). No sentido inverso, Meszáros aposta não na implosão marxiana em que o modelo sistemático iria, dentro do processo histórico, desmascarando seus antagonismos na contradição básica entre “apropriação privada” e “produção coletiva” – uma versão implosiva da ordem capitalista -, e sim na incapacidade do capital sair de suas fronteiras econômicas – o avanço da dívida externa e sua sensível relação com o capital financeiro -, e naturais na incapacidade energética do mundo de “democratizar” o consumo em padrões estadunidenses (a população dos EUA consomem 25% da energia produzida no mundo), e vemos então uma versão explosiva da ordem capitalista. Ao alcançarmos esta marca histórica em que o governo dos Estados Unidos luta dentro do Congresso para diminuir os gastos do Estado em função de estabilizar a dívida em 110% do PIB nacional (!), marcado principalmente pelo os que os jornais chamaram de crise de confiança nas convulsões do mercado financeiro em 2008, o planeta passa seus dias torcendo pelo sucesso de um equilibrista esquizofrênico, que sua queda não seria nada mais que uma falência geral sem precedentes.
A tendência de nosso mundo desenvolve-se para uma explosão apocalíptica, e não à uma implosão revolucionária. O papel do socialismo se torna cada vez mais a salvação de um devir histórico, do que apenas uma transcendência para uma proposta de liberdade. Voltemos ao necessário processo histórico – a história da propriedade privada – para responsabilizarmos com o futuro, que não se baseia na progressiva consciência anti-ideológica, mas simplesmente na bancarrota de todas nossas condições de vida.
Yuri Gomes Alves