Folha de São Paulo: Filha de Che teme que reformas afetem consciência social em Cuba
O Brasil recebeu a visita de Aleida Guevara, filha do revolucionário Ernesto, e a pergunta que nos traz é: o que o espectro guevariano pode nos oferecer? Pediatra, comunista e responsável pela memória de seu pai, Aleida veio até a terra tupiniquim palestrar sobre agroecologia em Londrina. De fato o dado bruto de sua visita não me interessou em primeira vista, mas a entrevista concedida à “Folha de São Paulo” trouxe algumas reflexões importantes sobre a famigerada ilha.
Cuba é o celeiro de críticas e louvações nos debates políticos, sempre vazios de descrições e sistematizações por ambas as partes. A “revolução cubana” – na qual Fidel Castro, em seus discursos na década de 60, destacava sua singularidade em relação à União Soviética – assumiu um papel de destaque na mentalidade política mundial monopolizada pelo maniqueísmo liberdade/igualdade (constituinte do princípio de direita/esquerda) a la Norberto Bobbio, na qual, necessariamente, um conceito sacrificaria o outro. Neste ponto os defensores e opositores simplesmente invertem o enunciado ideológico: há ditadura, mas lembre-se que há igualdade social/há igualdade social, mas lembre-se que há ditadura. Independente destas posições clássicas e cruas, aparentemente, sobra-nos o olhar de um sistema político-econômico sobrevivente no qual só pode ser sentido e compreendido com certo ar memorialista do presente.
Mas proponho outra visão: a perspectiva de Errol Flynn. Para quem não o conhece, ele era uma ator natural da Tasmânia, um dos ícones dos Estados Unidos nas décadas de 40-50, período este que iniciou seu declínio pelo alcoolismo, falecendo em solo canadense após um infarto fulminante. E daí? No fim de sua vida, observando sua degradação, resolveu fazer algo importante e desce até Cuba para gravar o filme “Cuban Rebels Girls”. A revolução já estava em seu término, e como Flynn gostava do perigo – já que fez longas viagens de barco até ilhas aborígenes antes da fama -, foi ao encontro de Fidel Castro nas montanhas, ensinou-o a discursar e decidiu mudar seu projeto; agora seria um documentário: o “Cuban Story” de 1953, apresentado apenas uma vez em Moscou por força do contexto político. Nesta pequena obra ele narrava as aventuras da guerrilha como as desventuras de seus personagens de piratas em “Capitain Blood”, ou as virtudes hollywoodianas de “The Adventures of Robin Hood”, e projetava todos os princípios liberais de liberdade e amor à Castro e seu grupo. O fundamental disso tudo é observar a própria observação crítica de um personagem pré-Guerra Fria, não pelo tempo ou pelo espaço que Flynn se encontrava, mas por seu espírito lacunar como o de Thomas em “A Insuportável Leveza do Ser”. Portanto seu discurso ideológico genealógico desconstrói o maniqueísmo atual e auxilia-nos a olhar com outra perspectiva a entrevista de Aleida Guevara.
Se há uma coisa que tanto Direita como Esquerda dão as mãos é sobre a ausência da democracia em Cuba. Hoje se tornou criminoso pensar uma “ditadura do proletariado”, mesmo sobre a ótica do próprio Marx na qual a a democracia liberal seria a ditadura da burguesia, e, portanto, uma democracia socialista se torna inversamente ao primeiro pressuposto a ditadura do povo. Mas de forma mais óbvia, e isto questiono a você leitor que deve ter uma opinião mínima sobre a ilha: como se configura o modelo político-eleitoral cubano? Poucos saberiam responder, acredito. Quase todos sabem que há apenas um partido em Cuba; mas qual é o papel deste partido? Mas antes: a democracia se baseia fundamentalmente no multipartidarismo? O multipartidarismo deve representar posições diferentes como a Esquerda? A maioria dos países capitalistas chamados democráticos na prática são bipartidários, com o maior exemplo dos Estados Unidos, que não tem representação efetiva da Esquerda, tem um sistema eleitoral na qual nem sempre aquele que tem maioria dos votos ganha... Esta “democracia” nos remete ao tom jocoso da Grécia Antiga de demokracia. O que Aleida nos traz é um sistema eleitoral bem complexo, na qual seus representantes são escolhidos através de votação popular em que os candidatos são selecionados por setores sociais das cidades, como hospitais e indústrias. Os representantes escolhem os ministros e o presidente, sendo que o partido dá orientações e acomoda a representação política no sentido de manter os pressupostos revolucionários. Esta organização política me veio por diversas fontes, como na entrevista de Aleida Guevara, e pode não ser assim tão funcional, como o mercado financeiro capitalista, ou pode haver obscurecimentos, como, por exemplo, as atividades na prisão de Guantánamo. Contudo é um modelo a ser discutido com afinco para se pensar posições de Esquerda, retomando a experiência histórica no sentido de questionar nossas presentes verdades e destruir de vez a antípoda liberdade/igualdade.
Hoje é fácil construir o discurso sobre formas já estabelecidas e por muito enrijecidas, mas devemos por um momento, como Flynn, tentar fazer algo importante ao observarmos o declínio de nossas presunções, e para isso, como diria Slavoj Žižek: "A única maneira de compreender a verdadeira novidade do Novo, é analisar o mundo através das lentes do que é eterno no Velho", e acrescento que algumas eternidades do Velho ainda são novidades e presentes.
Yuri Gomes Alves
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