Era um soldado fiel da Casa Real, um bravo homem, em que certo dia fora dispensado de suas funções, deixado ao léu pela Coroa, sem instrução o bastante para disputar alguma vaga na indústria ou nas Forças Armadas. Chegara a sua casa, sem esperança ou alento por uma vida desperdiçada, e sua bravura em defender o Rei se tornara vã ao ver o futuro de suas duas jovens filhas, sem o pão e a dignidade paterna. Não sabe-se muito bem se foi com a bala ou com os pulmões cheios do rio Havel, mas acabou com sua vida deixando uma carta à duquesa para que ajudasse a sua família.
Esta foi uma pequena narrativa contada nas últimas linhas de Karl Marx no texto sobreposto, sabiamente, aos diários de Jacques Pecheaut – Chefe de Polícia de Paris do início do século XIX –, o Sobre o Suicídio, publicado em um jornal alemão. O pequeno ensaio citado, de poética extraordinária, nos traz a alguns acontecimentos de nosso presente obscuro.
No texto, um de seus locutores descreve que nossa moralidade, filosófica ou cristã, bota a memória do suicida no banco dos réus, acusando-o de um ato covarde ou por postura antinatural. O soldado balança a cabeça enquanto o público aplaude. “Como seria antinatural algo que testemunhamos na natureza da vida privada de nossa sociedade?” Defende seus dois advogados e, indignados, continuam:
O número anual dos suicídios, aquele que entre nós é tido como uma média normal e periódica, deve ser considerado um sintoma da organização deficiente de nossa sociedade; pois, na época da paralisação e das crises da indústria, em temporadas de encarecimento dos meios de vida e de invernos rigorosos, esse sintoma é sempre mais evidente e assume um caráter sintomático. A prostituição e o latrocínio aumentam, então, na mesma proporção. Embora a miséria seja a maior causa de suicídio, encontramo-lo em todas as classes, tanto entre os ricos ociosos como entre os artistas e os políticos. A diversidade das suas causas parece escapar à censura uniforme e insensível dos moralistas” (MARX, 2006: 24).
A história do soldado, do filósofo alemão e do investigador francês morre em seu tempo? Ou este julgamento subjetivo nos traz jurisprudência o bastante para analisarmos as ebulições contemporâneas? Vaguemos pelo segundo questionamento.
Há um dado interessante em todo este imbróglio da crise econômica de 2008, ainda permanente: os números de suicídio na União Europeia subiram drasticamente como demonstra o gráfico do jornal Lancet:
Estes dados representam uma pesquisa quantitativa até meados de 2009, e quando olhamos mais de perto os números se agravam na Irlanda (que teve um aumento de 13 por cento) e na Grécia (um aumento de 17 por cento). Já é o bastante para tirarmos nossas conclusões? Não! Isto é muito pequeno para o relatório do Ministério da Saúde grego, Andrea Loverdo, nestes últimos tempos, que consta um aumento de, pasmem, 40%! Lembrem que no crack da bolsa de Nova Iorque, os Estados Unidos tiveram uma taxa de suicídios tão grande que os hotéis têm até hoje suas janelas trancadas para que seus cidadãos não saltem para, como descreveu Marx, o paraíso, para os cristãos, ou o simples e confortante Nada – o destino manifestado às vítimas do sistema.
Entretanto a epidemia suicida é da natureza de nossa sociedade, de sua vida privada que acomete não só suas vítimas, mas também os que “insurgem contra a ideia de assumir um lugar honroso entre os carrascos” (Ibidem: 29). Isto é demonstrado nos cinco casos da obra: grande parte dos principais personagens é da elite francesa.
Tais dados não são preocupantes, são riscos em um folha, números em uma tabela. Mas quando descobrimos que por trás destas representações simplórias da realidade há nomes, famílias arrasadas, pulsos cortados, corações trespassados por balas, corpos entregues ao trem, não podemos nos tornar omissos ao Mediterrâneo ensanguentado que escreve sua carta derradeira à nossa ordem opressora. Cabe-nos lê-la.
Refereências bibliográficas:
MARX, Karl. Sobre o Suicídio. São Paulo: Editora Boitempo, 2006.
Yuri Gomes Alves

Nenhum comentário:
Postar um comentário