No dia 17 de dezembro de 2010, Tarek al-Tayyib Muhammad Bouazizi, um vendedor ambulante de frutas e verduras na pequena cidade de Sidi Bouzid, foi abordado por oficiais de polícia da Tunísia. Embora não seja necessário naquele país uma autorização para se praticar comércio ambulante tal como Bouazizi fazia, os policiais o agrediram, confiscaram suas balanças e derrubaram sua carroça/loja, destruindo um valor aproximado de US$200 em produtos ainda não pagos por Bouazizi. Nascido na mesma cidade em que teria um dia sua rotina de trabalho interrompida, o jovem árabe perdeu o pai, que atuava como pedreiro na Líbia, aos três anos de idade. Ao lado de mais seis irmãos, sua mãe e um tio, Bouazizi teve seu primeiro contato com o trabalho aos dez anos, abandonando os estudos ao fim da adolescência para dedicar seu tempo ao sustento de sua família. Já adulto, pagava os estudos universitários de uma de suas irmãs com parte da renda mensal de US$140 que conseguia com o comércio.
Voltemos ao 17 de dezembro. Por não ser esta a primeira agressão sofrida pelo jovem, Bouazizi se dirigiu ao palácio do governador local, exigindo uma audiência para conseguir compensações pelas perdas de seus produtos, seu dinheiro, sua dignidade e seu trabalho. Após ter seu pedido rejeitado, Bouazizi, conhecido entre familiares e amigos por Basboosa, molhou seu corpo com tínner, riscou um fósforo e incendiou a si mesmo em meio ao tráfego de automóveis, em frente ao palácio do governo da província de Túnis. No dia 4 de janeiro de 2011, Tarek al-Tayyib Muhammad Bouazizi “Basboosa”, morreu em um leito de hospital na cidade de Ben arous. No decorrer dos quatro meses subsequentes, a Tunísia teve seu governo deposto, Hosni Mubarak foi demovido da presidência do Egito, o Estado do Iêmen negocia sua transição e a Líbia se divide em uma guerra civil sangrenta, sob o bombardeiro de forças aliadas do ocidente.
Apesar do desenrolar romântico da história de um jovem árabe que, num ato de revolta, dá início ao movimento de desobediência civil mais contundente deste novo século, Bouazizi não é o único detentor dos louros deste evento. O retrato de um mundo árabe marginalizado frente à cultura ocidental dominante, com uma juventude relativamente educada e instisfeita, presos em um sistema no qual as contradições da brutalidade do capital transbordam a olhos vistos, o processo de revolta parece mais um ato planejado numa tragédia, do que uma surpresa para todos. Talvez em uma reapresentação de uma conhecida lógica marxista, a farsa da revolta da primeira década deste século, remonte à tragédia da Revolta Árabe da primeira década do século XX. Porém, como bem observado por diversos pensadores ao longo do tempo, a farsa tem o péssimo hábito de ser mais trágica que a tragédia da qual ecoa. Se em 1916, os árabes desejavam ser livres do domínio otomano, hoje eles desejam ser livres de si mesmos. Livres não de suas ditaduras, não de seus costumes religiosos, mas livres daquele espírito de incômodo, de angústia, que não é singular ao jovem árabe que vende frutas em uma rua esquecida. Este mal-estar é próprio de todos os que se sujeitam à ordem corrente das coisas.
É sob esta óptica que quero iniciar meus trabalhos neste blog com uma série de artigos sobre as revoltas recentes no mundo árabe, seu significado para eles mesmos, para os observadores e para o processo social que envolve (e se desenvolve) este momento ímpar do início deste século. Se realmente nos encontramos no papel de espectadores de um turbilhão social internacional, entender sua realidade, seus símbolos, seus motivos e seus momentos é de um valor incomensurável para apreender nossa realidade, nossos símbolos, nossos motivos e nossos momentos.
Jose Antonio Ananias de Sillos
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